Estudo sobre a Estrutura de Governo na Igreja


Introdução


Existem aspectos do governo das igrejas locais no Novo Testamento que podemos identificar como sendo padrão bíblico? Como devemos estruturar a igreja em termos de cargos de liderança? Qual nomenclatura devemos usar para os cargos eclesiásticos? Qual deve ser o papel desempenhado pelos cristãos que ocupam os cargos estruturais da igreja? As mulheres podem ocupar cargos de liderança na igreja? E como deve ser a relação entre as diversas igrejas locais? Embora essas perguntas não apontem para o núcleo central da doutrina cristã, elas tratam de tema relevante na construção das igrejas atualmente, pois permeiam a mente e as conversas de muitos cristãos, que genuinamente buscam sanar dúvidas e obter orientação de Deus sobre o assunto.


O objetivo deste estudo é pesquisar o Novo Testamento em busca de aspectos relevantes e aplicáveis na atualidade, referentes ao modelo de governo adotado nas primeiras igrejas cristãs.


Começaremos enfatizando a importância de recorrermos à Bíblia para obtermos diretrizes para a Igreja. A partir das definições bíblicas, procuraremos esclarecer alguns malentendidos que nos rodeiam hoje, por meio do estudo de determinados termos cujos significados originais desvirtuaram-se ao longo dos séculos. Abordaremos a questão da participação feminina nos cargos e funções da igreja e, na sequência, traremos o tópico sobre liderança única e plural e o princípio espiritual que corrobora a escolha neotestamentária. Posteriormente, passaremos de forma sintética pelos principais sistemas de governo eclesiástico existentes, associando-os à evolução histórica resumida de seus processos de construção. Por certo, o entendimento (e a prática) de ensinamentos e exemplos oriundos dos apóstolos representará a melhor direção para a edificação e o fortalecimento da Igreja do século XXI e evitará sérios problemas decorrentes da não aplicação de preceitos bíblicos, ainda que sejam os mais periféricos no âmbito do Cristianismo.


1. Os fundamentos da Igreja e a autoridade do Novo Testamento


O Novo Testamento (NT) menciona características essenciais da Igreja de Jesus Cristo na seguinte passagem da carta de Paulo aos efésios:


Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornarse um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito. (i) (Efésios 2:19-21 - Bíblia NVI).


O apóstolo ilustra dois elementos basilares da Igreja: o alicerce (fundamento) e a referência principal (pedra angular), a partir dos quais a família de Deus crescerá unida entre si e com Cristo.


O "fundamento" refere-se aos apóstolos e profetas, com base na doutrina dos apóstolos, conforme Atos 2:42. Interessante notar que, tanto a contextualização, como a ordem das palavras, indicam que o termo "profetas" possivelmente refere-se aos profetas da era cristã (cristãos que, pelo dom do Espírito Santo - Efésios 4:11; 1 Coríntios 12:28; Romanos 12:6 -, traziam a mensagem de Deus à igreja, de acordo com a doutrina dos apóstolos) e não aos profetas vetero-testamentários. Isso se clarifica mais, quando lemos Efésios 3:5 - "Esse mistério não foi dado a conhecer aos homens doutras gerações, mas agora foi revelado pelo Espírito aos santos apóstolos e profetas de Deus [...]" (Bíblia NVI). De toda forma, Jesus e a Igreja (Novo Testamento) são também o cumprimento da Lei e dos Profetas (Antigo Testamento) - Atos 26:22-23.


A "pedra angular" é Jesus Cristo. Esta metáfora ampara-se no Salmo 118:22 ("A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular" - Bíblia NVI), foi mencionada pelo próprio Jesus (Marcos 12:10) e absorvida no ensino de Pedro, que a repete duas vezes no NT (Atos 4:11 e 1 Pedro 2:7). É relevante notarmos que, seja nessa metáfora (do edifício), seja na metáfora do corpo, Jesus se coloca como participante da Igreja, sendo seu líder (a cabeça do corpo, a pedra principal do edifício), a partir do qual - e somente a partir do qual - nos ajustamos e exercemos bem nossas funções como discípulos.


Enquanto os apóstolos estavam vivos, suas palavras eram autoridade para definir questões de fé e prática na Igreja. Como não houve sucessão apostólica (os apóstolos não nomearam sucessores e o dom de apostolado, com suas marcas - 2 Coríntios 12:12 -, foi temporário e com objetivo específico de fundar a Igreja - Efésios 2:20 -, tal como aconteceu com o dom de profecia); após a morte dos apóstolos, permaneceram apenas os escritos por eles deixados. Com isso, a autoridade oral foi substituída pela autoridade escrita, sendo, em nossos dias, o Novo Testamento a única base de autoridade apostólica existente. Associandose este fundamento com a tradição judaica corroborada por Jesus (Antigo Testamento), temos a Bíblia completa, a Palavra de Deus que foi transmitida aos homens e alcançou a nossa geração, sendo autoridade primária para as nossas vidas e para a Igreja.


Portanto, diante de qualquer questão referente à Igreja, devemos sempre recorrer à Bíblia na busca por direção divina. No caso das indagações formuladas sobre organização e governo das igrejas, não deve ser diferente. O Novo Testamento ensina princípios gerais do modelo de governo implementado pelos apóstolos nas igrejas do primeiro século. Nesse contexto, encontramos exemplos históricos e ensinamentos doutrinários que devem nos inspirar e nos orientar na concepção de nosso modelo atual de liderança. Esse entendimento é importante, pois, construindo desta forma, nossa confiança e nossa esperança não estarão no modelo em si, mas no firme fundamento de Deus e de sua eterna Palavra, que criou e sustenta todas as coisas.


2. Aspectos importantes do modelo de governo das igrejas do Novo Testamento


2.1 Distinção entre cargos e dons


Neste tópico falaremos sobre os conceitos e as designações que o NT traz para cargos eclesiásticos e dons do Espírito. Após estes dois parágrafos introdutórios, trataremos dos dons espirituais (características, propósito e tipos) e, por fim, dos cargos (características, pré- requisitos, propósito e tipos).


O Novo Testamento faz importante distinção entre "cargos" e "dons" (GEISLER, 2010, p. 582). Com isso, podemos distinguir "cargos" eclesiásticos (ocupados por alguns cristãos) de "funções" eclesiásticas (exercidas por todos os cristãos, como membros do corpo de Cristo), sendo aqueles vinculados diretamente à estrutura eclesiástica adotada, e estas atreladas aos dons dados por Deus aos discípulos. Os dons do Espírito Santo, como os dons ministeriais (apostolado, profecia, evangelismo, pastorado, ensino, etc.) - por exemplo, são concedidos diretamente por Deus para a edificação da Igreja (Efésios 4:11-12). Os cargos (presbítero/bispo e diácono - únicos cargos eclesiásticos mencionados no NT) são determinados ou aprovados pela igreja local, por meio da escolha de pessoas que atendam às qualificações e aos critérios estabelecidos (1 Timóteo 3:1-13; Tito 1:5-9). Dessa forma, a igreja define ou aprova a ocupação de cargos, mas ela não concede dons, como veremos nos tópicos que se seguem.


2.1.1 Os dons do Espírito


Em linhas gerais, a multiplicidade de dons tem como propósito suprir as necessidades dos santos; equipar, aperfeiçoar e edificar a Igreja; assim como, confirmar a pregação da mensagem cristã e proporcionar antegozo parcial da era vindoura (GRUDEM, 1999, p. 861- 862). A Bíblia sempre deixa claro, ao mencionar sobre os dons espirituais, que estes vêm de Deus, por sua graça, e são distribuídos aos cristãos pelo Espírito Santo. Cada cristão, de acordo com os dons dados pelo Espírito, exerce sua função na igreja. Os textos seguintes citam, de forma não exaustiva, diversos dons reconhecidos nos escritos apostólicos, sempre os vinculando diretamente à decisão e escolha de Deus, como indicam as expressões destacadas.


- Romanos 12:6-8 (Dons mencionados: profecia, serviço, ensino, encorajamento, contribuição, liderança e misericórdia).


Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente; se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia, que o faça com alegria. (i) (Bíblia NVI).


- 1 Coríntios 7:7 (Dons mencionados: casamento e celibato).


Gostaria que todos os homens fossem como eu; mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro. (i) (Bíblia NVI).


- 1 Coríntios 12:8-11 (Dons mencionados: palavra de sabedoria, palavra do conhecimento, fé, dons de curar, milagres, profecia, discernimento de espíritos, línguas e interpretação de línguas).


Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de conhecimento; a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de curar, pelo único Espírito; a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas. Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, como quer. (i) (Bíblia NVI).


- 1 Coríntios 12:28 (Dons mencionados: apóstolo, profeta, mestre, milagres, variedades de curas, socorros, administração e línguas).


Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dom de prestar ajuda, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas. (i) (Bíblia NVI).


- Efésios 4:7-13 (Dons mencionados: apóstolo, profeta, evangelista, pastor e mestre).


E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo. Por isso é que foi dito: "Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros, e deu dons aos homens". (Que significa "ele subiu", senão que também havia descido às profundezas da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas.) E ele [Jesus] designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. (i) (Bíblia NVI).