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Estudo sobre a Estrutura de Governo na Igreja


Introdução


Existem aspectos do governo das igrejas locais no Novo Testamento que podemos identificar como sendo padrão bíblico? Como devemos estruturar a igreja em termos de cargos de liderança? Qual nomenclatura devemos usar para os cargos eclesiásticos? Qual deve ser o papel desempenhado pelos cristãos que ocupam os cargos estruturais da igreja? As mulheres podem ocupar cargos de liderança na igreja? E como deve ser a relação entre as diversas igrejas locais? Embora essas perguntas não apontem para o núcleo central da doutrina cristã, elas tratam de tema relevante na construção das igrejas atualmente, pois permeiam a mente e as conversas de muitos cristãos, que genuinamente buscam sanar dúvidas e obter orientação de Deus sobre o assunto.


O objetivo deste estudo é pesquisar o Novo Testamento em busca de aspectos relevantes e aplicáveis na atualidade, referentes ao modelo de governo adotado nas primeiras igrejas cristãs.


Começaremos enfatizando a importância de recorrermos à Bíblia para obtermos diretrizes para a Igreja. A partir das definições bíblicas, procuraremos esclarecer alguns malentendidos que nos rodeiam hoje, por meio do estudo de determinados termos cujos significados originais desvirtuaram-se ao longo dos séculos. Abordaremos a questão da participação feminina nos cargos e funções da igreja e, na sequência, traremos o tópico sobre liderança única e plural e o princípio espiritual que corrobora a escolha neotestamentária. Posteriormente, passaremos de forma sintética pelos principais sistemas de governo eclesiástico existentes, associando-os à evolução histórica resumida de seus processos de construção. Por certo, o entendimento (e a prática) de ensinamentos e exemplos oriundos dos apóstolos representará a melhor direção para a edificação e o fortalecimento da Igreja do século XXI e evitará sérios problemas decorrentes da não aplicação de preceitos bíblicos, ainda que sejam os mais periféricos no âmbito do Cristianismo.


1. Os fundamentos da Igreja e a autoridade do Novo Testamento


O Novo Testamento (NT) menciona características essenciais da Igreja de Jesus Cristo na seguinte passagem da carta de Paulo aos efésios:


Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornarse um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito. (i) (Efésios 2:19-21 - Bíblia NVI).


O apóstolo ilustra dois elementos basilares da Igreja: o alicerce (fundamento) e a referência principal (pedra angular), a partir dos quais a família de Deus crescerá unida entre si e com Cristo.


O "fundamento" refere-se aos apóstolos e profetas, com base na doutrina dos apóstolos, conforme Atos 2:42. Interessante notar que, tanto a contextualização, como a ordem das palavras, indicam que o termo "profetas" possivelmente refere-se aos profetas da era cristã (cristãos que, pelo dom do Espírito Santo - Efésios 4:11; 1 Coríntios 12:28; Romanos 12:6 -, traziam a mensagem de Deus à igreja, de acordo com a doutrina dos apóstolos) e não aos profetas vetero-testamentários. Isso se clarifica mais, quando lemos Efésios 3:5 - "Esse mistério não foi dado a conhecer aos homens doutras gerações, mas agora foi revelado pelo Espírito aos santos apóstolos e profetas de Deus [...]" (Bíblia NVI). De toda forma, Jesus e a Igreja (Novo Testamento) são também o cumprimento da Lei e dos Profetas (Antigo Testamento) - Atos 26:22-23.


A "pedra angular" é Jesus Cristo. Esta metáfora ampara-se no Salmo 118:22 ("A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular" - Bíblia NVI), foi mencionada pelo próprio Jesus (Marcos 12:10) e absorvida no ensino de Pedro, que a repete duas vezes no NT (Atos 4:11 e 1 Pedro 2:7). É relevante notarmos que, seja nessa metáfora (do edifício), seja na metáfora do corpo, Jesus se coloca como participante da Igreja, sendo seu líder (a cabeça do corpo, a pedra principal do edifício), a partir do qual - e somente a partir do qual - nos ajustamos e exercemos bem nossas funções como discípulos.


Enquanto os apóstolos estavam vivos, suas palavras eram autoridade para definir questões de fé e prática na Igreja. Como não houve sucessão apostólica (os apóstolos não nomearam sucessores e o dom de apostolado, com suas marcas - 2 Coríntios 12:12 -, foi temporário e com objetivo específico de fundar a Igreja - Efésios 2:20 -, tal como aconteceu com o dom de profecia); após a morte dos apóstolos, permaneceram apenas os escritos por eles deixados. Com isso, a autoridade oral foi substituída pela autoridade escrita, sendo, em nossos dias, o Novo Testamento a única base de autoridade apostólica existente. Associandose este fundamento com a tradição judaica corroborada por Jesus (Antigo Testamento), temos a Bíblia completa, a Palavra de Deus que foi transmitida aos homens e alcançou a nossa geração, sendo autoridade primária para as nossas vidas e para a Igreja.


Portanto, diante de qualquer questão referente à Igreja, devemos sempre recorrer à Bíblia na busca por direção divina. No caso das indagações formuladas sobre organização e governo das igrejas, não deve ser diferente. O Novo Testamento ensina princípios gerais do modelo de governo implementado pelos apóstolos nas igrejas do primeiro século. Nesse contexto, encontramos exemplos históricos e ensinamentos doutrinários que devem nos inspirar e nos orientar na concepção de nosso modelo atual de liderança. Esse entendimento é importante, pois, construindo desta forma, nossa confiança e nossa esperança não estarão no modelo em si, mas no firme fundamento de Deus e de sua eterna Palavra, que criou e sustenta todas as coisas.


2. Aspectos importantes do modelo de governo das igrejas do Novo Testamento


2.1 Distinção entre cargos e dons


Neste tópico falaremos sobre os conceitos e as designações que o NT traz para cargos eclesiásticos e dons do Espírito. Após estes dois parágrafos introdutórios, trataremos dos dons espirituais (características, propósito e tipos) e, por fim, dos cargos (características, pré- requisitos, propósito e tipos).


O Novo Testamento faz importante distinção entre "cargos" e "dons" (GEISLER, 2010, p. 582). Com isso, podemos distinguir "cargos" eclesiásticos (ocupados por alguns cristãos) de "funções" eclesiásticas (exercidas por todos os cristãos, como membros do corpo de Cristo), sendo aqueles vinculados diretamente à estrutura eclesiástica adotada, e estas atreladas aos dons dados por Deus aos discípulos. Os dons do Espírito Santo, como os dons ministeriais (apostolado, profecia, evangelismo, pastorado, ensino, etc.) - por exemplo, são concedidos diretamente por Deus para a edificação da Igreja (Efésios 4:11-12). Os cargos (presbítero/bispo e diácono - únicos cargos eclesiásticos mencionados no NT) são determinados ou aprovados pela igreja local, por meio da escolha de pessoas que atendam às qualificações e aos critérios estabelecidos (1 Timóteo 3:1-13; Tito 1:5-9). Dessa forma, a igreja define ou aprova a ocupação de cargos, mas ela não concede dons, como veremos nos tópicos que se seguem.


2.1.1 Os dons do Espírito


Em linhas gerais, a multiplicidade de dons tem como propósito suprir as necessidades dos santos; equipar, aperfeiçoar e edificar a Igreja; assim como, confirmar a pregação da mensagem cristã e proporcionar antegozo parcial da era vindoura (GRUDEM, 1999, p. 861- 862). A Bíblia sempre deixa claro, ao mencionar sobre os dons espirituais, que estes vêm de Deus, por sua graça, e são distribuídos aos cristãos pelo Espírito Santo. Cada cristão, de acordo com os dons dados pelo Espírito, exerce sua função na igreja. Os textos seguintes citam, de forma não exaustiva, diversos dons reconhecidos nos escritos apostólicos, sempre os vinculando diretamente à decisão e escolha de Deus, como indicam as expressões destacadas.


- Romanos 12:6-8 (Dons mencionados: profecia, serviço, ensino, encorajamento, contribuição, liderança e misericórdia).


Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente; se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia, que o faça com alegria. (i) (Bíblia NVI).


- 1 Coríntios 7:7 (Dons mencionados: casamento e celibato).


Gostaria que todos os homens fossem como eu; mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro. (i) (Bíblia NVI).


- 1 Coríntios 12:8-11 (Dons mencionados: palavra de sabedoria, palavra do conhecimento, fé, dons de curar, milagres, profecia, discernimento de espíritos, línguas e interpretação de línguas).


Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de conhecimento; a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de curar, pelo único Espírito; a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas. Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, como quer. (i) (Bíblia NVI).


- 1 Coríntios 12:28 (Dons mencionados: apóstolo, profeta, mestre, milagres, variedades de curas, socorros, administração e línguas).


Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dom de prestar ajuda, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas. (i) (Bíblia NVI).


- Efésios 4:7-13 (Dons mencionados: apóstolo, profeta, evangelista, pastor e mestre).


E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo. Por isso é que foi dito: "Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros, e deu dons aos homens". (Que significa "ele subiu", senão que também havia descido às profundezas da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas.) E ele [Jesus] designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. (i) (Bíblia NVI).


- 1 Pedro 4:10-11 (Dons mencionados: variedade de dons divididos em dois grupos: todo aquele que fala e todo aquele que serve).


Cada um exerça o dom que recebeu para servir os outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas. Se alguém fala, faça-o como quem transmite a palavra de Deus. Se alguém serve, faça-o com a força que Deus provê, de forma que em todas as coisas Deus seja glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a glória e o poder para todo o sempre. Amém. (i) (Bíblia NVI).


2.1.2 Os cargos eclesiásticos


A diversidade de dons, entretanto, não garante "decência e ordem" (1 Coríntios 14:40) na comunidade, como biblicamente exemplificado pela igreja em Corinto. Sobre essa questão, a instituição de cargos eclesiásticos, com autoridade inerente a cada um deles, tem como objetivo possibilitar que a Igreja cresça como organismo estruturado que caminha harmonicamente no cumprimento de sua missão. A instrução de Paulo a Tito ("[...] para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros [...]" - Tito 1:5 - Bíblia NVI) e a Timóteo ("[...] saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus [...]" - 1 Timóteo 3:15 - Bíblia NVI) ilustram essa ideia. Por isso, a necessidade basilar de se cumprir critérios de qualificação, para que os ocupantes dos cargos sejam exemplo e tenham o respeito da comunidade cristã. Além disso, aos líderes da igreja cabe proteger o rebanho contra ameaças internas e externas, como observamos nos versículos que se seguem:


Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue. Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos. (i) (Atos 20:28-30 - Bíblia NVI).


A igreja tem a incumbência de escolher ou aprovar a indicação daqueles que ocuparão os cargos de sua estrutura eclesiástica. Certamente é Deus quem escolhe e levanta líderes em sua Igreja; porém, Deus almejou fazê-lo com a participação ativa da comunidade cristã. No NT identificamos uma estrutura simples composta por dois cargos (presbítero/bispo e diácono), para os quais a igreja designava alguns de seus membros. Logo no início da comunidade cristã em Jerusalém, os apóstolos (que exerciam o papel de "presbíteros" - supervisores ou líderes - da igreja) depararam-se com a necessidade de organizar melhor a distribuição diária de alimento para as viúvas. Para tanto, instituíram os primeiros diáconos, os quais cumprindo os requisitos espirituais de qualificação - exigidos mesmo diante da execução de tarefa eminentemente operacional -, foram escolhidos pela congregação.


Naqueles dias, crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega entre eles queixaramse dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento. Por isso os Doze reuniram todos os discípulos e disseram: "Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus, a fim de servir às mesas. Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Passaremos a eles essa tarefa e nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra. Tal proposta agradou a todos. Então escolheram Estevão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, além de Filipe, ...". (i) (Atos 6:1-4 - Bíblia NVI).


Isso que observamos na igreja em Jerusalém, no início da era cristã, tornou-se padrão em todas as igrejas no NT, com relação à organização eclesiástica: a existência de dois cargos, sendo que os presbíteros/bispos serviam como supervisores espirituais (principal grupo de liderança) e os diáconos, possivelmente, serviam executando tarefas específicas - e importantes no contexto da igreja -, tais como administração e finanças, benevolência, aconselhamento e coordenação de pequenos grupos, dentre outras, como sugere Grudem (1999, p. 770-771).


Ainda no livro de Atos, vemos Paulo e Barnabé, na primeira viagem missionária, voltando para cidades com igrejas recém-implantadas e designando presbíteros para essas comunidades: "Paulo e Barnabé designaram- lhes (ordenaram, elegeram) presbíteros (bispos) em cada igreja; tendo orado e jejuado, eles os encomendaram ao Senhor, em quem haviam confiado." (i) (Atos 14:23 - Bíblia NVI).


Quando não podia organizar pessoalmente as igrejas, Paulo delegava essa tarefa, dando instruções claras quanto aos requisitos espirituais necessários para se ocupar os cargos.


A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse (ordenasse, elegesse) presbíteros (bispos) em cada cidade, como eu o instruí. É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão. Por ser encarregado da obra de Deus, é necessário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto. Ao contrário, é preciso que ele seja hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, consagrado, tenha domínio próprio e apegue- se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela. (i) (Tito 1:5 - Bíblia NVI).


Esta afirmação é digna de confiança: Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro. Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? Não pode ser recém- convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o Diabo. Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do Diabo. Os diáconos igualmente devem ser dignos, homens de palavra, não amigos de muito vinho nem de lucros desonestos. Devem apegar- se ao mistério da fé com a consciência limpa. Devem ser primeiramente experimentados; depois, se não houver nada contra eles, que atuem como diáconos. As mulheres igualmente sejam dignas, não caluniadoras, mas sóbrias e confiáveis em tudo. O diácono deve ser marido de uma só mulher e governar bem seus filhos e sua própria casa. Os que servirem bem alcançarão uma excelente posição e grande determinação na fé em Cristo Jesus. (1 Timóteo 3:1-13 - Bíblia NVI).


No início da carta aos filipenses, Paulo faz menção aos ocupantes dos dois cargos daquela igreja: "Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos (presbíteros) e diáconos." (i) (Filipenses 1:1 - Bíblia NVI).


A partir desse entendimento, numa comunidade local no primeiro século, por exemplo, era comum a igreja nomear (designar, eleger, escolher) presbíteros e diáconos (para os cargos eclesiásticos); mas não faria sentido dizer que a comunidade cristã designava evangelistas, pastores e mestres (dons do Espírito), pois estes eram chamados (designados, eleitos, escolhidos) por Deus. A igreja apenas reconhecia a ação do Espírito por meio da vida dos irmãos, de acordo com os dons dados por Deus. Este é o padrão que encontramos no NT. De outra forma, de acordo com o modelo do NT, há uma incoerência se, por exemplo, dizemos que uma determinada igreja compõe-se de "presbíteros, evangelistas, diáconos e membros ativos", pois estaríamos estabelecendo o cargo de evangelista em sua estrutura (inexistente na igreja primitiva, por tratar-se de um dom). Podemos sim ter cristãos que ocupam o cargo de presbítero ou diácono e que receberam de Deus o dom de evangelista (ou mestre, ou pastor, ou de liderança, etc.).


2.1.3 Considerações sobre os termos "presbítero", "bispo" e "pastor"


O termo de origem hebraica "presbítero" ("presbuteros" = presbítero ou ancião) significa "mais maduro" ou "mais sábio" para exercer a função de "supervisor", conforme esclarece Geisler (2010, p. 581). O correspondente grego do termo é "bispo" ("episkopos") e, no NT, estas duas palavras aparecem como sinônimas.


Outro termo que gera certa controvérsia, por seu uso comum, atualmente, é "pastor" (Grego = "poimén"). Ao examinarmos a Bíblia, o termo pastor ocorre 18 vezes no NT, nunca como cargo eclesiástico, mas, em algumas passagens, referindo-se ao dom espiritual ou ao papel exercido pelos presbíteros (GUIMARÃES, 2013). Na maioria das ocorrências refere-se ao Senhor Jesus, como observamos na classificação esboçada no quadro seguinte:


Quadro: Ocorrências do termo "pastor" (Grego: "poimén") no Novo Testamento

Fonte: elaborado pelo autor (2014), a partir de pesquisa realizada por Guimarães (2013).


Sobre este tema, é significativa a análise de Atos 20:17,28, pois neste texto fica claro a intercambialidade entre os termos presbítero e bispo, assim como o papel que os ocupantes destes cargos devem exercer, "pastoreando" a igreja de Deus: "De Mileto, Paulo mandou chamar os presbíteros da igreja de Éfeso. [...] Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus [...]." (i) (Atos 20:28-30 - Bíblia NVI).


Guimarães (2013) resume a questão referente a estes três termos, mencionando que o NT aponta para uma pluralidade de líderes, sendo que por catorze vezes eles são chamados de "presbíteros" e por quatro vezes são denominados "bispos" (Atos 20:28; Filipenses 1:1; 1 Timóteo 3:2; Tito 1:7). Atos 20:17,28 demonstra que "presbítero" e "bispo" são vocábulos intercambiáveis. No entanto, apesar de terem o papel de pastorear a igreja, nem ao menos uma única vez a Bíblia lhes dá o título de "pastor".


2.1.4 A participação das mulheres em cargos eclesiásticos


Primeiramente, importa destacar que Deus criou homens e mulheres iguais em valor e capacidade de discernimento espiritual (Gênesis 1:27). Ambos foram criados à imagem de Deus. Jesus, sendo Deus, soube demonstrar isso claramente por meio do tratamento respeitoso que dispensou às mulheres durante seu ministério terreno.


Jesus tinha discípulos e discípulas (Lucas 8:1-3; 23:27) e ensinava a todos, independente do gênero, sobre as verdades eternas. Contudo, ao escolher os líderes principais que levariam a diante seus ensinamentos e estabeleceriam a sua Igreja, Cristo definiu um modelo plural de liderança masculina.


Nessa mesma linha, o NT como um todo não ampara a ideia de mulheres participarem do grupo de presbíteros na igreja. Este ensino vai ao encontro da divisão de papéis que Deus estabeleceu para homens e mulheres (iguais em importância como pessoas, mas diferentes no exercício de papéis distintos) e se verifica por meio das orientações de Paulo a Timóteo e Tito: "esposo de uma só mulher" (1 Timóteo 3:2 e Tito 1:6) e "Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade" (1 Timóteo 3:4).


Outra passagem que podemos analisar é 1 Timóteo 2:11-14, na qual, no contexto de toda a igreja reunida, Paulo faz duas proibições às mulheres: ensinar e exercer autoridade sobre os homens (funções típicas de presbíteros):


A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, e depois Eva. E Adão não foi enganado, mas sim a mulher que, tendo sido enganada, tornou-se transgressora. (i) (Bíblia NVI).


Estes ensinamentos, a exemplo também de 1 Coríntios 14:33-36, não intencionam proibir a mulher de proferir todo o tipo de discurso público, já que em 1 Coríntios 11:5, Paulo claramente permite que mulheres orem e profetizem na igreja. Grudem (1999, p. 789) se expressa, de forma geral, sobre o tema do seguinte modo: “Não haverá padronização eterna de papéis iguais para homens e mulheres em todos os níveis de autoridade na igreja. Ao contrário, há um modelo de liderança masculina nos supremos papéis de autoridade na igreja, modelo que será evidente para todos os cristãos por toda a eternidade.”


Por outro lado, as mulheres cristãs têm o Espírito Santo e, por consequência, a diversidade de dons (inclusive ministeriais), conforme a vontade de Deus. Aliado a isso, a igreja possui inúmeras necessidades, sendo que muitas delas serão supridas com o trabalho e a servidão das discípulas de Jesus. Prova disso é encontrada no capítulo 16 da carta aos romanos, no qual Paulo menciona diversas colaboradoras (Febe, Priscila, Maria, Trifena, Trifosa, Pérside, Júlia, etc.).


Embora seja tópico controverso, parece que o NT evidencia mulheres exercendo o papel de diaconisas nas igrejas do primeiro século. Isso pode ser visto a partir dos comandos de Paulo a Timóteo (1 Timóteo 3: 8-11) a respeito dos diáconos, dentre os quais, diferentemente de quando trata dos presbíteros, o apóstolo introduz a instrução contida no versículo 11, como observamos de forma destacada na sequência:


10 Devem ser primeiramente experimentados; depois, se não houver nada contra eles, que atuem como diáconos.