Parte I: Princípios fundamentais
II Tessalonicenses 2:10-12 “Ele [o perverso]
fará uso de todas as formas de engano da injustiça para os que estão perecendo,
porquanto rejeitaram o amor à verdade que os poderia salvar. Por essa razão Deus
lhes envia um poder sedutor, a fim de que creiam na mentira, e sejam condenados
todos os que não creram na verdade, mas tiveram prazer na injustiça.”
A sinceridade é uma das bases do amor, porque o amor verdadeiro
se baseia apenas naquilo que é verdadeiro e real. Um dos significados da
palavra, de acordo com o dicionário Aurélio, é “quem se mostra disposto a
reconhecer a verdade”.
A única chance de mudarmos nossos caminhos e nos tornar mais parecidos com Deus
é reconhecer nossos pecados de maneira sincera. No entanto, esse processo é
doloroso, pois nos faz ver coisas em nossa natureza humana que não são agradáveis.
Por essa razão somos chamados a amar a verdade, ou seja, a sermos sinceros. O amor
à verdade nos protege das armadilhas de Satanás, “que engana o mundo todo”
(
Há pecados ou situações em sua vida que você tem consistentemente evitado?
Quais as razões que têm levado você a não lidar com essas questões?
Você ama a correção? Obviamente, é difícil ser corrigido, especialmente quando
isso não é feito com espírito de amor, mas em última instância a nossa resposta a
correções depende do nosso amor à verdade. Lembre-se que “quem fere por amor mostra
lealdade, mas o inimigo multiplica beijos” (Provérbios 27:6).
Outra definição do termo “sinceridade” é “quem se expressa sem artifício, sem
intenção de enganar; franco, leal”. A nossa vida espiritual depende, em última
instância, de um desejo sincero de agradar a Deus. Nosso batismo depende de uma
boa consciência diante de Deus (I Pedro 3:21); nossa intimidade e recompensa
espirituais dependem de servirmos a Deus e não a homens (Mateus 6:1-18,
I Coríntios 5:8, II Coríntios 1:12, Efésios 6:5).
Nosso amor a Deus. Para sermos discípulos animados e firmes na fé, precisamos
aprender a falar a Deus o que está em nosso coração. Os salmos nos dão ótimos
exemplos de como abrir nosso coração com Deus. Na verdade, alguns dos salmos
nos deixam boquiabertos, tão grande é a sinceridade dos seus autores. Um dos
que mais me chocam, pessoalmente, é o Salmo 137. Seus últimos dois versículos
lêem assim: “Ó cidade da Babilônia, destinada à destruição, feliz aquele que
lhe retribuir o mal que você nos fez! Feliz aquele que pegar os seus filhos e
os despedaçar contra a rocha!” Por que será que o autor expressou esse sentimento
a Deus? A resposta mais simples e mais lógica é porque esse sentimento estava em
seu coração. Os judeus tinham visto os babilônios avassalarem sua terra e
despedaçar muitos dos seus próprios filhos! Se houvesse visto alguém fazer
isso com minha própria filha, provavelmente teria vontade de que seus filhos
ofressem o mesmo! Mas isso não seria contra o mandamento de Jesus de retribuir
o mal com o bem? Não! Quando você ora, você fala com Deus, e não com as pessoas.
Falar o que está em nosso coração a Deus não nos dá licença para manter esses
sentimentos em nosso coração, mas fornecem mecanismo para que possamos lidar
com a dor e perdoar. Quem ora sinceramente a Deus consegue tratar as pessoas
melhor. Pense, por exemplo, em Davi. Ele mesmo escreveu vários salmos pedindo a
Deus que castigasse seus inimigos. No entanto, observe como Davi tratou seus
inimigos, em particular Saul: com bondade e muita misericórdia! Você tem sido
sincero com Deus? Ele já vê o que há em seu coração, mesmo que tentemos
disfarçar nossos maus pensamentos e desejos com atitudes espirituais. Por
que não “abrir o jogo” e receber a intimidade, o perdão e o crescimento que
advém da sinceridade?
A sinceridade é o caminho para amarmos profundamente a Deus e as pessoas ao nosso
redor. “O amor deve ser sincero.”
Parte II: Natã
Natã serviu a Deus como profeta durante os reinos de Davi e de Salomão. Ouvimos
falar dele pela primeira vez em II Samuel 7:2, quando Davi lhe diz que gostaria
de construir um templo para Deus habitar. Natã responde ao rei que vá em frente,
mas naquela noite Deus fala com ele e lhe revela que seria o filho de Davi quem
construiria um templo para Ele. O versículo 7:17 diz que Natã “transmitiu a Davi
tudo o que o Senhor lhe tinha falado e revelado”. O trabalho de profeta nunca foi
fácil! Comunicar às pessoas a mensagem de Deus é tarefa que exige amor, coragem,
disciplina, sinceridade e muito amor à verdade. As mesmas dificuldades que
enfrentamos hoje para comunicar a mensagem de Deus às pessoas estiveram presentes
na vida dos homens e das mulheres que a Bíblia chama de profetas.
Imagine por um momento a reação de Davi à mensagem que Natã lhe transmitia. Para
quem é espiritual, tudo vem de Deus (Tito 1:15), mas mesmo para essas pessoas
geralmente leva um tempo até que lembremos que “a nossa luta não é contra seres
humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo
de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais”
(Efésios 6:12). Talvez Davi tenha ficado decepcionado: afinal de contas,
não tinha o próprio Natã, profeta de Deus, consentido com seus planos no dia
anterior? Davi poderia ter ficado com raiva de Natã e levado a coisa pessoal,
repreendendo-o por ter sido precipitado em dar seu aval, sem antes ter buscado
a Deus. Provérbios 19:3 ensina que é fácil jogar a responsabilidade por nossos
pecados em Deus e nos outros. Por causa dessa tendência humana, o profeta precisa
ser homem ou mulher sincero, que ama a verdade acima de qualquer coisa, e que está
disposto a passar por críticas e perseguições em nome dela.
A próxima vez em que o nome de Natã é mencionado na Bíblia encontra-se em II Samuel 12
e envolve o mais triste episódio da vida de Davi: seu adultério
com Bate-Seba, o assassinato de Urias e toda a mentira e enganação do
coração do rei. Vários meses se passaram entre o adultério e a visita
de Natã, porque o filho de Bate-Seba, fruto de sua relação ilícita com Davi,
já havia nascido.
Natã chega a Davi com uma história engenhosamente inventada, sobre o egoísmo e
injustiça de um homem que, embora sendo rico, decide tirar proveito da ovelha
cuidadosa e amorosamente criada por outro homem pobre (12:1-4). Davi enche-se
de ira e pronuncia julgamento sobre esse homem (12:5-6). É aqui que Natã pronuncia
uma das frases mais clássicas do Velho Testamento “Você é esse homem!” (12:7). Ele
prossegue para denunciar Davi do seu pecado e lhe relatar o julgamento de Deus (12:7-12).
Esse capítulo, apesar de incontestavelmente triste, é um dos que mais me comunicam a
bondade e a graça de Deus na vida dos homens. Davi se quebranta e assume
responsabilidade por seu pecado (12:13). Natã então lhe comunica que o Senhor já
o havia perdoado, porém seu filho morreria (12:13-14). Embora Deus prometa perdoar
todos os nossos pecados, ele não promete remover suas conseqüências. Um homem preso,
embora possa ter o perdão de Deus, ainda cumprirá sua pena. A mulher imoral, que
carrega um filho em seu ventre, pode receber a graça de Deus, mas ainda sofrerá as
pressões de cria seu filho sem o pai. Davi chorou e jejuou por seu filho adoecido
por sete dias, até que ele morreu (12:15-18). Davi então levantou-se, comeu e foi
consolar sua mulher (12:18-24). Deus, então, demonstra como perdoa nossos pecados
e continua cheio de visão por nós mesmo quando “pisamos na bola”: ao consolar
Bate-Seba, os dois têm relação e Deus faz nascer Salomão, que viria a ser o
próximo rei de Israel.
Natã mais uma vez é chamado em cena para trazer uma
mensagem a Davi (12:25), esta certamente de esperança e ânimo! No entanto,
foi a mensagem anterior, de condenação e julgamento, que tornou possível a
graça de Deus na vida de Davi. Como você se sente sobre o chamado de Deus para
ser sincero com as pessoas? Você tem se preparado para alcançar os corações de
maneira efetiva? Natã poderia ter chegado a Davi e condenado a ele de início,
mas percebeu que seu coração estava endurecido (já haviam se passado meses desde
o incidente) e que precisaria de um plano mais elaborado para ajudar Davi a ver
seu próprio pecado.
Natã também foi rápido para perdoar Davi. Muitas vezes, ao falar com as pessoas,
temos dificuldade em separar as pessoas do pecado cometido por elas, e “levamos pessoal”
suas ofensas. Precisamos ser sinceros para comunicar tanto o julgamento de Deus
quanto sua graça, sempre tendo em consideração que nossa tendência é sermos
pão-duros na misericórdia (II Samuel 24:14).
Escritura a decorar: II Tessalonicenses 2:10: “Ele [o perverso] fará uso de todas as formas de engano da injustiça para os que estão perecendo, porquanto rejeitaram o amor à verdade que os poderia salvar”.