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O nosso casamento com Deus na Igreja
Parte I – A liderança espiritual
Jorge Bittencourt

Em Efésios 5:21-33, Paulo descreve a dinâmica do relacionamento entre homem e mulher no casamento. Embora não haja diferença entre homem e mulher diante de Deus (Gálatas 3:26-29), eles possuem papéis diferentes: o homem deve amar a mulher e liderá-la e a mulher deve respeitá-lo e se submeter a ele. Essa foi a maneira que Deus estruturou o casamento para que os dois pudessem ser uma única carne (Gênesis 2:24) e, assim, completamente unidos.
Embora essa passagem tenha sido escrita especificamente para descrever o relacionamento entre homem e mulher no casamento, ela contém princípios de liderança e submissão que se aplicam a outros contextos espirituais, como o da organização da igreja de Deus. Neste artigo e no próximo, iremos analisar alguns desses princípios com relação a dois papéis cruciais na igreja: o de líder e o de seguidor. Começaremos hoje estudando características da liderança espiritual segundo os padrões de Deus.
Antes de prosseguirmos, no entanto, faz-se necessário ressaltar que, na vida cristã, cada um precisa assumir sua própria responsabilidade diante de Deus. Em certa ocasião durante o ministério de Jesus, quando uma multidão o seguia, ele disse: “Se alguém quiser acompanhar-me, tome diariamente a sua cruz” (Lucas 9:23, grifo meu). A cruz é individual e intransferível. Obviamente, somos chamados a ajudar uns aos outros a carregar os nossos fardos pesados (Gálatas 6:2), mas cada um ainda precisa assumir completa responsabilidade por sua vida espiritual. Isso significa que o discípulo é responsável por viver em obediência aos mandamentos de Deus mesmo que as pessoas ao seu redor, até mesmo outros discípulos, estejam em desobediência ou não estejam fazendo sua parte. Usando a analogia do casamento como ilustração, quando o marido deve amar a sua esposa? Somente quando ela se submete a ele? Não! Em todos os momentos! Quando a esposa deve respeitá-lo? Somente quando ele exerce uma liderança perfeita? Não! Em todos os momentos. Tendo dito isso, é imperativo afirmar que submeter-se não significa violar as leis de Deus, do país nem a consciência, assuntos que serão abordados mais profundamente no próximo artigo. Neste momento, é importante pensarmos que se assumirmos responsabilidade diante da cruz de Cristo, afastaremos as desculpas e nos concentraremos em ser o que Deus espera de nós, sem condicionar a nossa obediência ao comportamento de outras pessoas.

A primeira responsabilidade do marido perante sua esposa é amá-la como a si mesmo (Efésios 5:32). Similarmente, o líder deve amar os seus seguidores. Quais as características desse amor?

O líder deve amar sacrificialmente. Cristo entregou-se pela igreja (Efésios 5:25). Ele deu seu tempo e energia e sacrificou seus desejos e emoções por seus seguidores, terminando por entregar o seu próprio corpo para que fossem redimidos. O líder precisa estar disposto a sacrificar-se pessoalmente pelos seus seguidores. A noção popular de amor revolve ao redor do emocionalismo: alguém ama outra pessoa se sente fortes emoções por ela. Jesus ensinou que a base do amor é a obediência e o sacrifício: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos” (João 14:15). Amar é trabalho árduo. Paulo, ao se despedir dos presbíteros de Éfeso, disse assim: “Lembrem-se de que durante três anos jamais cessei de advertir cada um de vocês disso, noite e dia, com lágrimas. Em tudo o que fiz, mostrei-lhes que mediante trabalho árduo devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: ‘Há maior felicidade em dar do que em receber’” (Atos 20:31,35). Aquele que deseja liderar bem aos olhos de Deus precisa sacrificar-se.
O líder deve amar alimentando e cuidando do seu grupo (Efésios 5:29). Deve ensinar a Palavra de Deus com profundidade, ânimo e inspiração, apontando direções e tornando-a relevante. Deve atentar para as necessidades físicas e emocionais dos seus seguidores, preparando-os e ajudando-os a amadurecerem.
O líder deve amar com sensibilidade. Cristo amou a igreja para apresentá-la gloriosa (Efésios 5:27), radiante! Deve ser o alvo de cada líder ver os seus seguidores felizes e radiantes! Para isso, é necessário ouvi-los pacientemente e buscar entender as suas necessidades, mesmo que se expressem de maneira inadequada ou até mesmo desrespeitosa. Obviamente, o seguidor é responsável, diante de Deus, por agir de maneira respeitosa, mas isso será abordado com mais detalhes no próximo artigo. Também é importante para o líder entender o contexto em que seus seguidores estão situados e se esforçar para sentir a sua dor, pois um velho ditado já dizia que “as pessoas não se importam com o quanto você sabe até que saibam o quanto você se importa”. Nunca deve haver ambiente hostil onde as pessoas não sentem liberdade para expressar as suas idéias e emoções e onde haja desrespeito a maneiras diferentes de se pensar e ver as coisas. Para isso, é essencial estarem “todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se” (Tiago 1:19).
O líder também deve amar por meio da repreensão. Jesus disse à igreja de Laodicéia: “Eu repreendo e disciplino aqueles que eu amo” (Apocalipse 3:19). No passado, muitas vezes não nos esforçamos para entender o contexto em que as pessoas estavam situadas e a dor pela qual passavam e, mesmo assim, as chamamos ao arrependimento, produzindo dor em muitos corações. Precisamos praticar o amor sensível discutido no parágrafo anterior. No entanto, muitos discípulos reagiram aos erros do passado omitindo outro componente essencial do amor: a repreensão. Pecado ainda é pecado e a sua conseqüência ainda mata espiritualmente as pessoas (Romanos 6:23). Deus ainda nos chama a libertar aqueles que estão sendo levados para a morte (Provérbios 24:11-12) e a termos um nível de amor tão profundo que estaremos dispostos a até mesmo ferir um ao outro por amor (Provérbios 27:5). Sem o confronto espiritual e o chamado ao arrependimento, é impossível haver liderança espiritual.
O líder precisa amar tomando a iniciativa. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (I João 4:19). Quem amou primeiro? Jesus ou a igreja? Da mesma maneira, o líder é aquele que toma a iniciativa em resolver conflitos, encorajar e se humilhar, sem esperar nada em troca.
O líder deve amar tendo consideração pelos seus seguidores. Paulo, em sua terceira viagem missionária, fundou uma igreja na cidade de Tessalônica. Alguns anos depois, escreveu a sua primeira carta àqueles queridos irmãos, onde disse: “como podemos ser suficientemente gratos a Deus por vocês, por toda a alegria que temos diante dele por causa de vocês?” (I Tessalonicenses 3:9). Paulo, mesmo tendo passado apenas três semanas com aqueles discípulos (Atos 17:1-2), tinha imensa gratidão e apreço por eles. O líder deve ser o fã número 1 do seu grupo! Deve encorajá-los, acreditando em seu progresso na vida cristã. É muito mais fácil passar pelos desafios da vida quando há pessoas que acreditam e têm visão por nós!

A segunda responsabilidade do marido perante sua esposa é liderá-la (Efésios 5:23). Da mesma forma, o líder deve liderar os seus seguidores. Que tipo de liderança é esperada por Deus?


Uma liderança que dá visão. “Quando não há visão, o povo não tem freio” (Provérbios 29:18, Bíblia de Jerusalém). O papel principal do líder é mostrar uma direção e fornecer uma visão. Um grupo sem visão perece. Sacrificar-se sem uma causa maior é dor quase insuportável. O líder precisa estar perto de Deus e acreditar nos planos incríveis que ele tem não somente para a sua vida, mas para a dos seus seguidores também, e comunicar esses planos clara e entusiasticamente.


O líder precisa ser modelo. “E disse Jesus: ‘Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens’” (Marcos 1:17). O plano usado por Jesus para levar seus discípulos a Deus foi mostrar-lhes o caminho por meio da sua vida, ao invés de apenas ensinar-lhes como andar. O líder deve demonstrar em sua vida tudo o que ensina ao seu grupo. Obviamente, temos diferentes dons, e nenhum líder é completo, mas é necessário haver um esforço em cada área da sua vida para se tornar mais como Jesus. Paulo também ensinou esse princípio: “trabalhamos arduamente e com fadiga, dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vocês, não por que não tivéssemos tal direito, mas para que nos tornássemos um modelo para ser imitado por vocês” (II Tessalonicenses 3:9).
O líder precisa exigir o padrão bíblico dos seus seguidores. “Saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade” (I Timóteo 3:15). O líder é responsável por chamar as pessoas a colocarem em prática as exigências de Jesus para a vida de discípulo. Não basta dar o exemplo, é necessário que, seguindo a verdade em amor, falemos a verdade uns aos outros (Efésios 4:15). Jesus era um homem cheio de graça e verdade. No passado, pendemos mais para a verdade. Hoje, reagimos para o lado da graça. Jesus era “cheio de graça e de verdade” (João 1:14, grifo meu). Ele nunca sacrificou a verdade por causa da graça, tampouco deixou sua graça de lado em nome da verdade. O líder não pode ter vergonha ou medo de chamar as pessoas a serem sacrifício vivo (Romanos 12:1-2), a colocarem a igreja em primeiro lugar em suas vidas (Mateus 6:33) e a renunciarem a tudo o que possuem para seguir Jesus (Lucas 14:33). Não fazer isso é ser infiel com a mensagem de Deus!
O líder precisa ter zelo. “Se alguém tem o dom de exercer liderança, que a exerça com zelo” (Romanos 12:6,8). O que significa zelo espiritual? Uma combinação de paixão e convicção. Jesus era um homem de zelo: “Seus discípulos lembraram-se que está escrito: ‘O zelo pela tua casa me consumirá’” (João 2:17). João escreveu esse versículo logo após narrar como Jesus havia expulsado os cambistas do Templo, a casa de Deus. Ao fazer isso, Jesus demonstrou convicção de que o Templo deveria ser um lugar de oração (Marcos 11:17) e o fez com incrível paixão, mostrando a todos que a atitude dos cambistas o deixava indignado. Há muitas maneiras de demonstrarmos zelo, mas uma das principais é com a vida espiritual dos seus seguidores. O líder precisa cuidar dos que o cercam com convicção e paixão. Deus espera que alertemos uns aos outros sobre o pecado (Ezequiel 3:16-19) e que nos importemos com a vida um do outro como ele se importou (João 13:34-35). Para isso, é necessário zelo.
Liderar é um privilégio (I Timóteo 3:1) e um desafio ao mesmo tempo (Tiago 3:1). Quem possui o dom da liderança deve exercê-lo com zelo (Romanos 12:8), tendo consciência da influência que um só homem ou uma só mulher pode ter na vida de muitas pessoas!
“Aqueles que são sábios reluzirão como o fulgor do céu, e aqueles que conduzem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre” (Daniel 12:3).


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